Um pesquisador de segurança, Quentin Kaiser, divulgou em 16 de outubro uma falha no software de configuração de Wi-Fi da Broadcom, fabricante de chips usados em muitos roteadores. Quem estiver dentro do alcance do sinal sem fio pode executar comandos com privilégios de root, o nível mais alto de controle do aparelho, sem precisar da senha da rede nem de nenhum pareamento.
Para entender a falha, pense no WPS como um atalho para conectar um aparelho ao Wi-Fi sem digitar a senha. A Broadcom mal trata a remontagem de mensagens de configuração que chegam divididas em pedaços. Com mensagens montadas de propósito, um atacante consegue corromper a memória do roteador. Kaiser usou isso para ler dados da memória e para rodar código próprio no aparelho. Nos testes, ele mostrou o ataque funcionando em roteadores de provedores belgas: em um deles, leu a senha do Wi-Fi, e em outro abriu um shell remoto, uma linha de comando controlada de fora, pelo ar.
Segundo ele, o ataque funciona a distância, não só bem perto do aparelho, e não há relatos de uso real da falha. Os exploits usados são do próprio pesquisador. Ele estima que milhões de dispositivos no mundo, de dezenas de fabricantes, possam ser afetados. Na Bélgica, a falha foi encontrada em roteadores de três dos quatro grandes provedores: Proximus, Orange Belgium e VOO. O Telenet pode ser afetado, mas não pôde ser testado.
O problema é antigo: o código remonta a pelo menos 2010. Em 2018 a Broadcom teria lançado uma correção incompleta e pedido que os clientes trocassem para outro pacote de software, o hostapd. Nos chips mais antigos, baseados em eCos, nunca houve correção funcional, por isso Kaiser chama a falha de forever day, um problema que não será corrigido nesses aparelhos.
Ainda não há CVE, o código de identificação usado para acompanhar falhas. Segundo Kaiser, a Broadcom disse saber do problema desde 2018, mas não quis registrar o CVE nem falar publicamente. Quando ele levou o caso ao CERT Coordination Center, o pedido foi fechado no mesmo dia, pois cabe à própria Broadcom registrar CVEs de seus produtos. Até 19 de outubro, o The Hacker News não encontrou nenhum CVE para a falha.
O que fazer: não há correção para instalar nem configuração que bloqueie o ataque pelo ar. O pesquisador publicou regras YARA, que procuram o código vulnerável em firmwares extraídos, e um script que analisa um ponto de acesso em funcionamento. Esses recursos servem só como triagem: um aparelho corrigido ainda pode aparecer, então um resultado positivo pede verificação adicional. Para equipamentos que nunca receberão correção, a troca é a opção mais prática. Vale seguir as instruções do fabricante do seu roteador e mantê-lo atualizado.

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