Em seu balanço mais recente, a Apple mostrou como vem se beneficiando do boom da inteligência artificial sem gastar tanto quanto suas concorrentes em infraestrutura. A empresa teve o melhor ano fiscal de sua história em receita e lucro por ação, com a receita do iPhone subindo 17,5% e a do Mac crescendo 24%. Mesmo assim, as ações caíram no pré-mercado de terça-feira (03/11), porque a Apple avisou que o aumento do custo das memórias vai pressionar suas margens de lucro no trimestre de fim de ano.

A IA foi citada 45 vezes na teleconferência com analistas, um recorde segundo a plataforma AlphaSense. A lógica da empresa é simples: ela pode vender os aparelhos que as pessoas usam para IA, mesmo quando o modelo de IA vem de outra companhia, cobrar assinaturas de apps de IA e cobrar mais de quem quiser acesso ampliado aos recursos próprios de IA.

Na comparação com os gigantes do setor, a diferença de investimento é grande. No último trimestre, a Apple gastou US$ 2,2 bilhões em investimentos de capital, enquanto a Amazon gastou US$ 77,3 bilhões e a Alphabet US$ 51,4 bilhões. A Apple combina processamento no próprio aparelho, servidores próprios e tecnologia de IA de terceiros. A Siri com IA usa modelos desenvolvidos com a tecnologia Gemini, do Google.

A Siri com IA começou a chegar aos usuários em versão beta para o inglês dos EUA, em setembro, e foi ampliada em outubro para francês, japonês, coreano, português e espanhol. Recursos que dependem de modelos nos servidores terão limites de uso, e quem precisar de mais poderá comprar acesso ampliado no futuro, na mesma lógica dos planos do iCloud.

A Apple também lucra quando o cliente roda IA localmente em seus computadores. A empresa citou clientes como a Gap, que usa Mac Mini para prevenção de perdas em centenas de lojas, e a Christie's, que roda modelos locais em Mac Studio para estimar preços. Além disso, a Apple recebe comissões sobre assinaturas de IA feitas pela App Store. Segundo o Wall Street Journal, a empresa caminhava para mais de US$ 1 bilhão em taxas de apps de IA generativa em 2026, e a OpenAI passou a direcionar assinantes para pagar pelo site, fugindo dessas comissões.

Em resumo, a Apple ganha com IA de várias formas sem precisar construir todos os modelos nem financiar uma infraestrutura do tamanho da de seus concorrentes.