Nas últimas duas semanas, Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft anunciaram planos de gastar mais de US$ 740 bilhões em capex neste ano. Capex são os gastos com equipamentos de longo prazo, como data centers e chips usados em IA. Até pouco tempo atrás, o mercado via esses gastos como sinal de confiança, mas agora o entusiasmo está dando lugar à preocupação.

Os receios incluem o chamado fluxo de caixa livre negativo, que acontece quando a empresa gasta mais dinheiro do que recebe, o crescimento das dívidas e a dúvida sobre se esses investimentos enormes vão gerar lucro suficiente. Na sexta-feira, 30/10, o índice Nasdaq caiu 2,9%, e as ações de chips também despencaram: Nvidia caiu 4%, Broadcom mais de 5% e Qualcomm 11%.

A Alphabet, dona do Google, é o exemplo mais claro do problema. No terceiro trimestre, teve fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões, o segundo trimestre seguido no vermelho, mesmo com capex de US$ 51,4 bilhões. A empresa prevê gastar até US$ 205 bilhões neste ano. Ao mesmo tempo, o AI Mode, recurso de chatbot de IA dentro da busca, parece estar comendo parte da receita de anúncios, que cresceu só 12%, o ritmo mais fraco em cinco trimestres.

Amazon e Meta também veem o caixa encolher. A Amazon teve fluxo de caixa negativo de US$ 42,4 bilhões nos últimos 12 meses e prevê US$ 220 bilhões em capex neste ano, embora a AWS, sua nuvem, tenha crescido 39%. A Meta teve fluxo negativo de US$ 2,1 bilhões no terceiro trimestre e pode chegar a US$ 145 bilhões em capex, apesar de a receita de anúncios ter subido 26%. A Microsoft foi a exceção, com US$ 18,6 bilhões de fluxo positivo, mas disse que seus gastos ficaram abaixo do previsto por atrasos de provedores terceirizados de capacidade.

Parte do dinheiro para tudo isso também vem de emissão de ações e títulos de dívida. Segundo a S&P Global Market Intelligence, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle captaram juntas US$ 326 bilhões em dívidas em 2026, o triplo do ano anterior. A demanda por computação de IA continua forte, mas o custo para atendê-la está assustando os investidores.

O cenário também pode complicar a abertura de capital da Anthropic, que entrou com pedido de IPO nesta semana. Segundo o Financial Times, o Blackstone alertou que a empresa pode não se qualificar para uma classificação de grau de investimento, o que a deixaria mais dependente de gigantes da nuvem e terceiros para financiar sua infraestrutura.